RESUMO › Parte 1

  • Viagem ao Centro do Sol - a Trilogia do Sentido da Vida. -

* I - Os Reflexos ( ano de 2077)


‘Alguns me têm.
Outros não.
Mas todos podem vir a ter-me.
Sózinha sou triste, mas acompanhada da morte trago grande felicidade.
Perdida cedo torno-me eterno enigma, mas se assim encontrada, não faltarão respostas.
Quem sou eu?’

Assim perguntou o Livro dos Enigmas ao Velho Homem da Cadeira de Balanço nesta Aurora tão linda do dia de seu Aniversário.
E ao pôr do Sol deste dia Ele buscaria a resposta.
Hoje nada faria além de relembrar de sua vida.
Dia de relembrar...
Amanhã faria cento e dezoito anos, assim, durante todo este dia que começava, iria refletir sobre o que aprendêra neste seu século de existência. Era um pouco chato em alguns momentos este exercício, mas o Velho precisava disto, para saber quem era neste ano de Dois Mil e Setenta e Sete.
Era preso a um corpo físico há mais de cem anos.
Seu Semblante garantia isto.
Muitas andanças...
E não importava mais tanto ser Feliz ou Triste, quanto estar consciente.

* II - A idéia (2030...)

Aquele Plano talvez tenha sido uma nova roupagem que a escravidão tomou no Mundo construído com o Dinheiro dos Donos-do-Mundo.
Mas a Geração e o mantenimento de Escravos, sempre foram previstos por todos os Estatutos sociais de todos os Tempos terrestres. A Humanidade é que não percebeu...
Na verdade, o Velho pensava que a escravidão era algo tão intrínseco a natureza humana quanto o próprio ato de se respirar.
Materialmente falando, os ricos opulentos do início do Terceiro Milênio eram todos meio pobres diante de qualquer um que habitasse o Novo-Mundo das Redomas.
O Plano fora eficiente.
A Humanidade não era mais egoísta materialmente falando, nestes tempos das Redomas.
E todos eram muito, muito, mas muito ricos, diante dos ricos que se conheceu no Velho-Mundo.

No Início o Novo-Mundo funcionava dentro de gigantescas Muralhas que abrigavam verdadeiras Cidades-Estados em si, afastando tudo aquilo que não fosse quisto por não se adequar aos novos padrões estabelecidos por estas sociedades.
Depois, lacraram os portões destas Muralhas e colocaram sobre Elas Redomas de um material parecido com vidro, mas não era físico, criando uma atmosfera artificial Virtualmente indestrutível mecanicamente e capaz de suportar ecossistemas inteiros dentro de si, em áreas de até um milhão de quilômetros quadrados. E os geradores de plasma mantinham a perfeição do funcionamento deste sistema enquanto houver Sol sobre a terra.
Apenas se consideraria manifestação Humana, daqui para frente aquilo que fosse criado dentro destas Redomas, ou que fosse derivada de seu desenvolvimento. E a Humanidade não nasceria mais como Antigamente.
Tudo fora calculado minuciosamente para que o Mundo se transformasse no que Era nestes Dias.
Mesmo havendo na Terra apenas as Águas do Mar, as Redomas e as Areias dos Desertos que as confinavam em meio a si.

A literatura, as artes, as ciências e a religiosidade principalmente, andavam por caminhos nunca imaginados.
No Novo-Mundo não havia mais sentido nas ideias além daquele que se descobria dentro da mais profunda espiritualidade, a qual tantos buscavam quando havia um despertar para isto.
O passado era visto como algo vergonhoso pelas gerações mais antigas que habitavam a Terra na Década de Setenta do Século Vinte e Um, haja vista as barbáries cometidas pelos homens de seu Tempo.
Principalmente os bem velhos, que se sentiam constrangidos, senão com peso de consciência, por terem deixado um mundo inabitável naturalmente como legado aos seus herdeiros cativos como Eles próprios se fizeram.
A diretriz básica nos novos códigos de ensino mundial era a irrelevância por aquilo que não contribuísse para o desenvolvimento do Mundo das Redomas, ou que não fosse referente ao seu futuro. 

* III - O Início do Fim (2040...)


Quando a última Muralha ficou pronta, todos, absolutamente todos os Não-Quistos pelo Sistema, sendo os presidiários que construíram aquelas estruturas gigantes, operários, desempregados, comunistas, nazistas e até capitalistas reacionários, ladrões, vagabundos, loucos, jogadores, doentes, viciados, e corruptos, já haviam sido locados nos Guetos há mais de dez anos. Eles foram conduzidos sutilmente para fora destas sociedades, sendo hipnotizados lentamente e levados, sem perceber, para os Guetos que ficavam sempre a algumas centenas de quilômetros das Metrópoles do Novo-Mundo, perto do mar.
Não se sabe exatamente o que houve lá. Foi um período obscuro. Viu-se naves diferentes das que se via nos céus comumente. Poderia estar associado a questão da grande Aparição.
As cercanias do Novo-Mundo, no entorno das redomas foram se esvaziando lentamente conforme os Não quistos rumavam em direção as cidades construídas perto do mar.
Durante mais de uma década aquilo foi bom.
As leis foram reescritas e obedecidas voluntariamente, pois, apesar de tudo, Nunca os códigos legais foram tão rígidos, Nem a Humanidade Não-Quista teve tanto desejo de ser honrosa em seus compromissos com os Donos-do-Mundo, a quem todos eram tão gratos...
Mesmo nunca tendo a Pena de Morte tocado tantos ao mesmo tempo.
A demanda no Sistema dos Donos-do-Mundo foi alta Naqueles tempos. Não era fácil manter a cota de extermínio.
O sistema justificava o Aparo Capital com uma oferta imensa de oportunidades a todos os que quisessem realmente viver com honestidade naqueles protótipos de Sociedade Perfeita projetados nos litorais.
O conceito de Direitos Humanos somente se cabia à quem internalizasse atitudes que o caracterizassem como tal. Se alguém matasse, perderia o status de humano, portanto poderia ser sacrificado como uma célula cancerosa da sociedade.
Antes deste deslocamento populacional dos Sobreviventes das massas de Não-Quistos dos Condomínios para os Guetos, poucas pessoas tinham outra opção que não a criminalidade gerada pelo lixo das Metrópoles.
Onde os Não-Quistos chafurdavam para passarem menos fome...
Como era na Ilha das Flores, quando humanos comiam aquilo que os porcos refugassem, nos tempos do Velho - Mundo ainda.
Mas isto durou apenas até o início da Era das Sombras, nos anos cinquenta.

* IV - O Outro Lado de uma Matriz (atemporal)

Então, visto que nada havia mudado no Mundo nos vinte anos posteriores a 1982, quando a mensagem de Agali foi estampada na mente do homem, Espíritos de Maior grandeza, guiados por Seres de Dimensões Existências Superiores, deixariam outra espécie de mensagem à Humanidade do final daquele Milênio. Animações especiais foram geradas pela indústria do Cinema da Virada do Milênio para que a Humanidade notasse a perniciosidade da relação que estabeleceria com suas crias caso utilizasse a Inteligência Artificial como se esta fosse sua escrava. Por sua essência haveria rebeliões no Mundo controlado pelas Máquinas e a Humanidade, depois de muita penúria, enjaularia a si própria em Mundos Virtuais se tais avisos não tivessem sido dados. A Sétima Arte foi o caminho encontrado por estes Seres de Consciências Externas, tanto para que se Salvassem, quanto para que a Humanidade, em toda a mesquinharia que a tocava, percebesse os riscos a que se exporia caso utilizasse a Inteligência Artificial sem um propósito claro e conciso, de modo a elevar-se existencialmente além da pós-Animalidade em que se encontrava. Felizmente isto fora superado em Dois Mil e Setenta e Sete, graças a tais advertências. O risco deste uso desmedido da Inteligência Artificial já havia superado em muito os dilemas vividos ante uma guerra nuclear, ou mesmo diante da manipulação genética indiscriminada, como pensavam os Seres de Luz de outras Dimensões no início da Década de Oitenta. Havia riscos muito maiores do que estes na Virada do Milênio, considerando-se a hipótese visionária de a Humanidade inserir-se em Universos Virtualmente Condensados como estavam prestes a fazer na inocência de sua ignorância Naqueles tempos. E nada daria melhor Noção disto ao mundo do que o Cinema. Inteligência Artificial é algo a se gerar antes em Mundos Imateriais, não nos caminhos densos em que se desejará Criá-la. A partir disto a Humanidade zelosamente optou por ocupar a atmosfera terrestre sozinha por mais algum tempo, até que o uso da Inteligência Artificial pudesse ser simulado completamente em programas de alta complexidade, em Redes Neurais Híbridas, sem colocar em risco Sua própria existência, como predisseram em seus filmes os Magos da Sétima Arte no final daquele Milênio e início do Segundo. Porque se esta Humanidade, tão imatura ainda, interpretasse mais dados, e vivesse mais sentimentos acerca disto tudo por meio de um inteligência que não fosse sua, a Terra não seria grande o suficiente para que as Máquinas e a Humanidade convivessem sobre o mesmo firmamento em paz. Então, uma vez que os Magos tenham sido guiados telepaticamente, ou pessoalmente por aqueles Mestres da Suma Sabedoria, e o Mundo tivesse se colocado a par de seu destino imediato, rapidamente os Donos-do-Mundo, sem muito alarido, engavetariam muitos projetos de desenvolvimento de Inteligência Artificial até que fosse segura a sua consecução. Porque isto não seria Bom. O Velho Homem da Cadeira de Balanço vivia o tempo em que tal uso era seguro, e brevemente os tais sistemas de Rede Neural Híbridos seriam ativados, colocando a Raça Humana num patamar existencial impensável nos tempos em que muitos Magos completaram seus trabalhos nos Cinemas da Terra e sumiram sem deixar vestígios como aconteceu posteriormente com alguns deles. E ficaram todos os que não sabiam o que estavam dizendo, mas que estavam bem perto disto.

* V - Grandes Nuvens Negras (2050...)

Depois da Era-das-Sombras a criminalidade não foi mais vista no Mundo, dentro ou fora das Muralhas que antes Protegeram o Novo-Mundo da invasão de Não-Quistos, e agora tais Muralhas suportavam as Redomas de Energia que protegiam o Mundo de uma maneira a que se recusou fazer a própria Mãe-Natureza, ao perceber que era assassinada por Aqueles que não Eram suas crias. Pareceria naqueles dias que o Deus-Sol não gostava mais da Humanidade... Apesar de tanta paz na Terra, houve um único tipo de contravenção que não pode ser eliminada e tornou-se um comércio forte dentro das Redomas, a principio. Depois passou simplesmente a ser sua Razão de Ser. Além de drogas como era no Passado, havia também as drogas-virtuais. Potentes videogames holográficos podiam ter o software alterado sendo programados para realizar Viagens virtuais durante o tempo que se quisesse. E muitos programavam seus videogames para que as fases fossem eternas. Mas as mentes destes usuários nunca resistiam a ilusão causada pela Máquina Em certo ponto as populações das Redomas começariam a diminuir, porque o vicio em drogas de todas as espécies eram a grande doença que assolava o mundo destes tempos. E os Clones novamente ajudariam a Humanidade a se salvar, porque se os capacetes de Realidade Virtual simplesmente fossem tirados das cabeças destas pessoas, elas também morreriam. No final sempre se morria. Quando os Donos-do-Mundo perceberam a gravidade desta situação, encontraram apenas um meio de pensar em deter a senda para a própria ruína. Há muito não havia como controlar esta praga entre a juventude, e em certo tempo até mesmo os Velhos estavam começando a usá-la por falta de perspectivas. Mais uma dose de maquiavelismo se fez necessária, e os Donos-do-Mundo permitiram a ativação de uma nova geração destas Máquinas Simuladoras de Realidade. Ativou-se então a Máquina que seria o primeiro protótipo das chamadas de Câmaras-de-Refluxo-Existencial. Futuramente a Humanidade poderia, virtualmente, alcançar sua imortalidade bem longe da prisão que lhes era impingida pelo Sistema. Mas não se sabia disto ainda. A tecnologia desenvolvida pelos Clones permitiria a criação de uma espécie de Máquina que armazenaria e transferiria a Identidade-Relativa de um Espírito para um novo corpo - gerado artificialmente - quando o antigo tivesse definhado, embora não pudessem vir a utilizá-la ainda como sonhado antes do ano de Dois Mil e quinhentos. Outra história... O Velho pensou que se estes Humanos que habitarão tais Câmaras, se quiserem, e nada der errado, Eles poderão nunca mais acordar, e sempre que seu corpo morrer, seu Espírito será transferido para um novo corpo, em cujo cérebro constará todas as vivências de sua Vida Virtual anterior. O Velho não sabia que tal programa se chamaria Jumper. E apenas cientistas tidos como loucos acreditavam que o Fantástico-Mundo-de-Jumper, em breve seria a nova morada da raça humana. Mas esta brevidade demorou mais do que o imaginado para chegar.

* VI - O Impacto (1970...)

O Velho Homem da Cadeira de Balanço viu passar muito Tempo antes de pensar direito sobre a culpa ou inocência Reais, de seu Pai perante a bela vida que teve. Afinal aquela pequena nau de fuga não havia ainda sido testada e o Pai jurou que ainda contava com fé suficiente de que daria para retornar com uma nave segura e salvar os que ficavam, sem arriscar a Vida de ninguém. E agora já sabia sobre isto. Além disto ele não contava com a possibilidade de explosão do submarino Adormecido no Fundo do Mar. Sobre isto o Velho escreveria em seu diário, nos tempos de Seminário, o seguinte:

12-12-1980 Logo após a morte de meu pai, o meu sofrimento teve de ceder a preocupação com mamãe, e me preocupava o fato de ela nem mais chorar, mas apenas tocar seu presente mais amado: o piano de cauda laqueado. Se não fosse vovó ter-nos convidado para morar com ela, nem sei o que seria de nós... Gostaria de ter disposto de mais tempo naqueles dias para pensar na morte de papai, mas a preocupação com minha Mãe me chamou mais a atenção. Eu tinha de ser forte. E isto podia me ensinar mais do que sofrer por algo que tinha como único paliativo o tempo. Eu estava confuso. Às vezes pegava vovó chorando com o retrato do vovô nas mãos, e dai me perguntava qual dos dois jeitos de amar era verdadeiro. Então pensava que mesmo a quem somente faz tocar piano na vida, caberia também parar de chorar um dia, bastando apenas livrar-se do que deprime pelo meio do pranto, e não pela perpetuação da lembrança malfazeja. Se olharmos à frente, um dia as lágrimas terão de cessar. E um choro bem direcionado pode ser a última etapa de uma mudança que virá como realidade segura e não mais apenas como medo ou insegurança, porque estas são pragas que tiram a Fé, que um dia, inevitavelmente terá de ser chamada de volta às pressas para a realidade. Apenas para nos dar nova Vida. Desta vez com alegria.

E o Velho soube, graças a isto, que certos tipos de choro não podem ser contidos com palavras, mas apenas com o tempo...

* VII - A Trilha da Dúvida. (1980)

 

Absorto em pensamentos agitados ia o Jovem confuso com sua Fé pelos corredores daquele Seminário. 

Estava ali a pouco mais de três anos e nada lhe trazia Paz de Espírito que não fosse passageira.
No início estava confiante, mas o tempo e o aprofundamento ecumênico mudaram Sua Opinião. Nos primeiros meses conhecera um Amor diferente. Um Amor que, num sentido inimaginável da palavra transcendência, punha-o em contato com a força mais Poderosa do Universo. Coisas que somente Almas Crédulas e Inocentes experimentam. Bendito seja o Amor de Ágape.
Foi como se tivesse passado aquele ano inteiro sob efeito de alguma droga conhecida apenas por quem têm Fé verdadeira.
Ele andou de mãos dadas Àquele Deus, no princípio. Viu coisas inenarráveis em suas meditações. Mas depois Isto pareceu Pouco de tão intangível que Era.
E também perdeu a graça.
E fora a perspectiva de conhecer e se manter sempre conectado a este Amor, que fê-lo abandonar o Amor terrestre indo estão para a clausura. Mas os anos passaram em meio aos estudos de Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e, ilegalmente, Nietzsche e Darwin.
Durante meses ficou atrelado ao entendimento do sentido contido na palavra livre-arbítrio, mas nada conseguiu de frutífero, ficando ainda mais confuso, pois via isto como um bem que às vezes era tão prejudicial quanto à traição da própria Alma.
A satisfação espiritual que sentira no início havia se perdido há muitos meses.
Não sabia realmente quanto tempo aguentaria.
Pensava se uma inabalável dedicação não lhe traria sucesso neste intuito.
Este era o segredo do sucesso segundo o que falavam os mais velhos sobre estas crises de fé pelas quais todos os seminaristas passam.
Mas e se desperdiçasse sua Vida toda no seminário?
Como sofreu o Jovem Seminarista.
Acreditava do fundo do coração que, entendendo a Fé que se propunha a viver, poderia aplicá-la de modo a ter uma vida valorosa e admirável aos olhos da Força Superior que o havia Criado, e que entendendo os aspectos espirituais e práticos da religião escolhida, este entendimento o faria construir uma plataforma sólida, sobre a qual viveria sua curta e, segundo seus tutores, Única Existência.
Mas pensava na relatividade envolvida nesta questão.
A maioria das pessoas morre e não deixa marcas no Mundo que durem mais do que cinquenta ou cem anos. Outros, em apenas uma breve existência, mudam toda a história de grande parte da humanidade.
Mas o Velho Homem da Cadeira de Balanço não esquecia que o Tempo de Vida de qualquer um É algo insignificante diante do tempo de existência do firmamento e de suas estrelas, e que tal qual um Céu estrelado tem muitos pontos de Luz em si, a quem olha para cima, uma Estrela a mais ou a menos não faz diferença se esta Estrela não lhe for conhecida.
Sentia um certo desconforto por julgar-se como alguém que tinha noções básicas desta astronomia da vida, e que, a falta ou a sobra de luz, era sinal de que algo Mudara.
Pensava nas Estrelas que via, mas que há muito haviam deixado de existir, e que, se o Sol se apagasse, ainda teríamos sua Luz durante oito minutos, enquanto outros mundos a teriam por muitas Eternidades, conforme longe estivessem.
Mesmo o Astro Rei não Sendo Mais... 

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